31/12/2010

Não fique atrás da linha

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14/12/2010

Final (Duda)

Suspendi o vestido e minha sandália prateada reluziu as micro pedrinhas que adornavam os meus dedos dos pés. Meus olhos vislumbraram o salão ornamentado, de tapete vermelho, luzes e muitas flores. Fotógrafos não paravam de disparar flahs sobre os formandos.

Maurício, pelas suas dez mensagens de celular, mostrava sua total apreensão por eu não chegar a tempo pra sua grande festa de formatura. Por conta da prova da faculdade, precisei vir sozinha dirigindo maquiada e de cabelo todo enrolado em cachos e muito spray. Procurei manter o vidro sempre fechado pra que ninguém ficasse reparando nessa louca andando toda pintada. Mas, eu não podia negar um pouco da minha loucura.

E foi descendo os degraus da grande escadaria de granito vagarosamente que minha memória foi buscar as duas pontas da teia que nos capturou. No primeiro dia de aula, aquele garoto lindo, de parar o coração, já tinha roubado minha cota mínima de esnobismo feminino. Sempre que passava, suspendi meus nervos por ganchos invisíveis.

A vida se encarregou de nos fazer encontrar pela segunda vez, já que viemos pelo mesmo ventre a este mundo e nesta vida pra ficarmos juntos de qualquer forma. Eu precisei esperar que ele ficasse com outra mulher e com outro para entendermos que a nossa união perfeita não poderia ser reproduzida nele pelos traços do mais perfeito falsificador.

O que foi a minha vida senão uma preparação para sua chegada, uma ponte que transportou todos os que me ensinaram a viver uma rotina errante, de casa em casa, em estado a estado pra que um dia pudesse compreender sua missão e não amá-lo menos por sua escolha.

E hoje era a celebração desse primeiro marco do caminho fora da Academia e eu queria encontrá-lo mais que tudo para o beijo e os carinhos que agora poderíamos dar. Foi preciso o tempo da resistência a fim de apreender a força maior do amor verdadeiro.

O que senti por Emanuel fora uma fagulha de fogo. Ainda penso nele e sinto uma lembrança doce, mas estranhamente frustrante. Não um sentimento de troca pelo que hoje tenho como seguro, mas de ter um ponto na minha vida que não dera certo, nesse caso o melhor mesmo é esquecer. Não apagar da memória, apenas afastar para um ponto mais escuro, que não ocupe o lugar à luz da felicidade onde a pessoa que realmente nos ama deve estar.

O que é o amor? Essa é a primeira dúvida na nossa vida adolescente que levamos um tempo pra chegar ao final da equação. Não é o valor do x que responde, mas todo o desenrolar da questão. O amor não é uma pessoa. Amor é um processo. Ele compreende a soma de todas as pequenas e mágicas experiências de afeto que alguém escolheu ter com você e não com outro. Abarca a divisão dos seus momentos ruins para que possa te ajudar a suportar a dor e não foge, fica ali do seu lado pra mostrar que é seu sustentáculo. É a multiplicação de sonhos, pois quando se quer junto, o vislumbre da conquista se torna mais forte. É elevar a toda a potência a explosão química do encontro de duas peles que tem química e se precisam.

Como uma conta tão difícil de fazer, por vezes, paramos no meio da resolução para descansar e repensar. Voltamos com o lápis para viver até o último sinal e chegar a conclusão final de que é aquela pessoa e não outra. Não que as pequenas continhas que fazemos na beira do caderno da vida pra chegar a certas parciais sejam desimportantes para o processo de aprender a amar. Como falei, são meras fagulhas de fogo que ficam ali grifadas na borda da memória e vez por outra retornam. Contribuem, mas não levam o mérito maior da resolução máximo de que aquele é o amor eterno.

Soltei o vestido que segurava com as mãos úmidas e rapidamente passei os olhos no salão a procura da numeração das mesas. Meus olhos logo encontraram o meu Maurício, minha alma gêmea. Eu estremeci por dentro e meu coração parecia tão retumbante quanto o som da batida da banda. Ele estava lindíssimo de roupa de gala cinza, gravata preta, cabelo molhado, como um príncipe, por mais piegas que seja hoje em dia.

Ele que conversava com um amigo, parara de repente de beber e sorrira. Era tão linda a maneira como a felicidade de me ter se desenhava em seu rosto em curvas e rugas ao redor dos olhos. Fiquei ali parada, deixando que ele fizesse o percurso a passos rápidos entre as mesas e driblando os garçons. Sabíamos que ali não era o lugar de beijos efusivos e para não haver uma colisão incandescente e explosiva, ele parou bem um passo de distância, agarrando minha cintura com suas mãos.

_Você está... _soltou o ar e piscou algumas vezes. _...linda. Meu deus!

_Parabéns por chegar até aqui. _acariciei seu rosto e sorri. _Agora eu vou te levar até ficarmos velhinhos pra ficar junto comigo pra sempre...

Ele riu e me abraçou:

_Você é perfeita.

A festa foi emocionante, com direito a muitas fotos com amigos e familiares. Mas, no fim da noite, ele me seqüestrou para a saída e perguntou se eu estava com a chave do carro na minha bolsa. Eu franzi a testa afirmativamente, começando a gostar disso.

_Então vamos... _ puxou-me pela mão.

_Mas, e...?

_Eles estão avisados. _ conduziu-me pela escadaria por onde subi, suspendendo o vestido e dando pulinhos.

_Pra onde vamos? _ perguntei, procurando a chave do carro entre batom, pó compacto e celular.

_Vamos comemorar.

_Hum... _entrei no carro e senti que agora a festa estava começando.

Descemos em um hotel que não conhecia e ele pediu a chave do quarto. Já tinha feito aquela reserva? Que surpresas mais me esperavam? Foi o que lhe perguntei, mas ele tinha mais pressa em entrar no elevador que em responder.

_Você preparou isso pra mim? _ era óbvia a resposta, mas eu queria ter o prazer do mérito da atenção.

_Isso? Nem começamos! _ riu travesso. O meu Maurício, menino de cabelo raspado, que vivia sem camisa, se suspendendo na barra e arrancando meus suspiros reclusos atrás da janela do meu quarto no andar superior. Ele abriu a porta e me agarrou em um apertado abraço, empurrando-a com as costas, enquanto dava passos atrás. Procurou a luz e eu fiquei boquiaberta com as flores e champanhe. Fiz uma cara que o preocupou enquanto trancava o quarto:

_Que foi? Não gostou?

_Não, mas, foi você...? _suspendi a sobrancelha.

_Ninguém aqui, ninguém ali na sacada... _ fez um ar brincalhão e eu ri de nervosismo. _Então, acho que é só eu e você. _puxou minha mão e colamos nossos corpos. _ Você estava a mais linda de todas.

_Todos os meninos devem ter dito isso pra cada uma.

_Posso dizer pra minha?

Minha. Quando você se torna o pronome próprio é o momento de celebrar a chegada do alto da montanha.

_Hoje, você pode tudo... _beijei-o com vontade, sugando lábios, me livrando de panos, suspirando peles, saboreando línguas, entrelaçando dedos.

No amanhecer da próxima manhã acariciei seu cabelo e sorri. Nossa vida começava e não era sonho, sonho era a realidade.

Fim.

15/10/2010

Cap 37: Não quero você fora da minha história (Duda)

O que se pode dizer dessa festa igual a todas as outras? Uma fila enorme na porta, não importando com quanta antecedência organizou a lista e enviou pra boate, depois de ter ligado para uma penca de amigos e enviado e-mails para várias listas. Depois, o bolo que o garçom traz com o balde de champanhe, taças e... Não é nada disso que realmente mexia com minha cabeça e meu estômago aquela noite. Eu estava enjoada com a presença de Maurício ora perto demais, ora terrivelmente longe, zanzando entre os bares e falando no ouvido de umas e outras.

Agüentei com paciência um carinha dando mole, enquanto Helena me olhava sobre os ombros deste com uma mensagem de que era melhor jogar aquele peixe de volta no rio, pois o dia não estava pra pesca predatória. Nos encontramos no microbanheiro de duas baias onde 3 garotas resolviam fumar e conversar, como se não pudessem fazer isso em um lugar melhor e minha amiga confirmou a suspeita que eu tinha sobre sua opinião:

_Você vai ficar com alguém na cara do Mau hoje? Cuidado, eu não quero briga...

_Ele nunca foi de brigar! _fiz uma careta. Como eu o estava defendendo?

_Eu tenho medo de estragar a sua festa.

_Ele já estragou estando aqui, ele não podia ter vindo... _mordi o lábio e disse pra garota atrás de mim que podia usar o banheiro na minha frente.

_O que você está sentindo?

_Que quero fugir.

_Isso é muito ruim. Tsi tsi... _bebeu o gole da sua bebida, deixou o copo no canto da pia e ajeitou seu cabelo. _ ... Eu vou falar com ele. Quer que vá embora?

_Está louca?! Eu não daria essa bandeira.

_Então, não sei o que fazer...

_Está tranqüilo. Já cantamos parabéns, agora falta o quê?

_Meu Deus! Era para ser divertido, parece que quer saber o que falta para acabar uma missa de sétimo dia.

_Vamos voltar pra lá. _ pedi, não por vontade de dançar, mas para cair de volta na escuridão, onde não me viam. _Vou ali pegar alguma coisa... _ disse pra ela e me aproximei sozinha do bar. Pedi uma caipirinha e fiquei mexendo o canudinho por um tempo. Encostei a mão na testa e respirei fundo. Eu era livre pra fazer o que quisesse, não precisava continuar em um lugar onde não estava me sentindo bem. Carreguei meu copo até o lounge e sentei próximo a janela que dava para um vista incrível da praia. Bebi lentamente o líquido gelado, que desceu quente.

Peguei meu telefone e com uma mão deslizei o dedo sobre a tela touch. Abri uma mensagem de texto e escrevi: “Amiga, vou pra casa. Por favor, segura o pessoal aí. Diz que estava passando mau, sem trocadilhos. Rs. To bem. Peguei um táxi.”

Enviei o texto e aproveitei a fila vazia pra pagar a conta, entregando meu cartão de consumação. Desci os dois degraus e o segurança abriu a porta. Andei vagarosamente alguns metros até a fila dos táxi na esquina.

_Duda? _ouvi uma voz atrás de mim.

Fechei os olhos. Eu não tinha ouvido, fora só impressão...

_Duda, espera!

_Droga. _coloquei a mão na cintura, mas não me virei.

_Duda... _ ele apareceu na minha frente, ofegante. _O que foi isso? _apontou para o celular.

Franzi a testa e mostrei não entender.

_A mensagem!

_Por que a Helena te contou?! _irritei-me.

_Não, você mandou pra mim. _ sorriu.

Arregalei os olhos e depois fiz uma careta pegando o aparelho na minha bolsa, vasculhei a caixa de saída.

_Hunrgggggghhhhhh... _grunhi. Eu não cometi esse ato falho! Eu quero morrer agora, por favor, um carro pra passar por cima de mim aqui na calçada. _Ok, fique com o meu atestado de idiota que eu vou pegar aquele táxi ali. _ dei um passo a frente.

_Não! E eu?... Já paguei.

_Ótimo, e eu com isso?

_Mas, é a sua festa! _apontou pra dentro.

_Não percebeu? Eu também paguei e já saiu, ou acha que essa área aqui também faz parte da festa?_ abri os braços.

_Está indo por causa de mim?

_Deixa de ser convencido!

_Eu não queria estragar sua festa, nem fiquei perto de você!

_Obrigada por respeitar meu espaço, mas na verdade eu preferia não estar respirando o mesmo ar que você.

_Duda, podemos conversar?

_Oi? Desculpe acho que não cabe mais isso. Tchau, Mau. _ andei para o táxi.

_Você não vai não, eu vou te levar.

_Se toca, você não é mais nada meu, na-da!

_Não? _perguntei e duvidei da minha capacidade de estar usando as palavras certas para ser bem clara.

_Eu estou cansada. _abri a porta do táxi.

_Duda?

Bati a porta. Cheguei em casa e encontrei meu pai na cozinha, bebendo água. Peguei um copo, também estava precisando.

_Na minha época as festas terminavam mais tarde. _comentou. _Mas, isso era careta. Agora, é trend chegar cedo?

Eu ri e deixei o copo na pia. Dei um tapinha em seu ombro e sem palavras caminhei pro meu quarto. De olhos fechados me dei conta de um detalhe muito importante. Se Mau tinha lido a mensagem, Helena não sabia onde eu estava. Enviei um sms e agradeci por seu esforço em me animar, mas estava precisando mesmo de uma noite de sono.

Acordei de manhã com uma baita dor de cabeça. Escovei o dente na suíte do meu quarto e lavei finalmente o rosto pra tirar toda a maquiagem. Uma ducha bem quente me relaxou. Agora, um remédio e um café me ajudaria a recuperar a moral.

Passando pela sala vejo Maurício sentado no sofá e pisco o olho com força. Se ele não tivesse se levantado eu teria pensado que estava sonâmbula em um sono profundo.

_Ah! Essa não! _ virei as costas e voltei para o meu quarto, me chocando com meu pai no corredor. _ Por que o deixou entrar?

_Olha, ele disse que se eu não deixasse entrar, ia ficar ali fora sentado até você envelhecer e seria capaz de se alimentar das plantas. Por favor, eu não quero ver um homem com cara de náufrago, barbudo e vestindo trapos, me entregando o jornal deixado na porta todo dia de manhã. Estou fora dessa.

_Não acredito... _balancei a cabeça com decepção e entrei no meu quarto. Era só esperar alguns segundos pra ouvir a porta abrir atrás de mim.

_Tudo bem? _perguntou.

_Veio pra conversar, suponho. _falei com raiva por insistir tanto em me fazer abrir a caixa de pandora. _ Eu não te contei que fiquei com o Emanuel, né? Então, fiquei com ele quando namorava você. _cruzei os braços e esperei que isso o ferisse bastante.

_Eu sabia. Não que essa parte tenha sido boa de encarar. Mas, ele não está aqui, não é mesmo?

Minha boca se abriu e fechou e meus braços se descruzaram vagarosamente.

_Eu imaginei que não ia dar em nada... Mas, eu tinha que te deixar ser feliz.

_Como...?

_Sua mãe me falou que era a pessoa mais infeliz do mundo comigo... que você ia ter um namoro normal...

_Foi por isso... Então, você não...

_Eu também te traí, não posso tirar o corpo fora. Não era nada que merecesse ser lembrado, aliás, eu nem devia ter feito aquela merda, bebi e acabei perdendo o controle... Não tem mais importância.

_Simples? Só isso, ficamos elas por elas e... _falei sarcástica.

_Duda, você pode me mandar embora e ficar assim nossa história, ou pode pedir pra eu ficar e...

_Eu é que tenho que dizer? _perguntei, irritada por ter que ser a quem implorava o retorno.

_O que importa, então, é o seu orgulho? _ele deu um passo a frente e ameaçou ajoelhar. Virei de costas e pedi “Por favor”, ignorando-o. _Ok, se não é por bem, eu já cansei. Prefiro os meus métodos. _puxou meu braço e me envolveu. _Volta pra minha vida. _sua testa colou na minha. _Nós temos uma história, o mesmo sangue, a mesma origem, o mesmo amor... Duda, eu não consigo admitir que você seja de mais ninguém, não dá pra mim.

Engoli em seco.

_Eu fui um fraco, mas sou mais fraco ainda em ficar longe do seu cheiro, da sua pele, do seu cabelo... _afagou meus cachos e segurou minha cabeça com os polegares sobre meus maxilares. _Eu não vou aceitar fácil, se disser não. Sabe tudo o que tenho pra oferecer e não posso mudar isso. Continua me esperando...

Minha mão acariciou seu rosto e ele soltou o ar, fechando os olhos, aliviado pelo gesto de sim.

_Eu te amo tanto... _suas palavras foram postas nos meus lábios e me beijou com tanta vontade que eu senti paz, uma profunda tranqüilidade do meu porto seguro.

Apertamo-nos em um abraço forte enquanto nossas bocas se experimentavam em um novo começo.

_Eu posso salvar ainda a sua festa que eu estraguei?_perguntou e eu sorri.

_A festa não. Você estragou a minha vida ficando longe. _envolvi seu pescoço e o beijei mais com toda a saudade de que tentei me curar. _Amo você...Vou te esperar. Sempre. _Olhei seu rosto lindo e o sorriso perfeito. Acariciei seus braços grandes e senti uma alegria enebriante.

14/10/2010

Cap 36: Eu quero ir embora dessa festa! (Duda)

Passei a mão sobre o vestido justo ao corpo e senti-me um pouco apertada. Será que engordei? Não era o que dizia minha amiga Helena, remexendo minha caixa de bijus a procura de um colar de pérola. Segundo ela, a única coisa boa dos dois meses de depressão fora meu look “pós-spa” ou seja, s-im-p-lesmente-a-rrasadora, pois emagreci bastante. Na verdade, eu não lembrava mais como era estar em uma roupa tão sexy. A minha camisola de ursinhos rosa era meu abrigo por um bom tempo. Subi no salto e joguei os cachos recém modelos pelo babyliss pra frente.

_Óh, meu Deus! _ Helena murmurou do reflexo do espelho onde eu me olhava.

_Que foi? _ perguntei tensa, como esperando que ela dissesse que o vestido rasgara atrás.

_Não fique perto de mim hoje, à noite. Você vai atrair todos os caras lindos!

Revirei os olhos e soltei o ar. Era isso? Ela era mestre na técnica de levantar o meu moral, treinou bem todos os argumentos nos últimos tempos. Mas, conseguira com louvou me fazer organizar minha festa de aniversário em uma boate. Tudo bem que a maior parte ela mesma fizera sozinha. Eu só me limitei a dizer sim com a cabeça a cada nome que ela incluía na lista.

_Você também está linda. _ disse-lhe, buscando a minha bolsinha para atravessar a alça no pescoço. _ Eu não sei o que seria de mim sem você.

_É bom te ver assim de novo. Agora, vamos que o táxi parece que chegou... _ olhou pela cortina da janela. _ Saudade da época que tinha motorista.

_Não era meu motorista, era meu guarda-costas. _ que ironia eu orgulhosa de ter tido um.

_E onde foi parar aquele cara lindo que mexera com seu coração?

_Ele recebeu uma proposta de ir pra Austrália e foi. _ respondi sem ânimo, pegando a chave de casa no móvel próximo a porta de saída.

Se Emanuel mexera comigo, Maurício tinha sido um terremoto destrutivo. Apertei os olhos por um segundo e briguei comigo mesma por ter lembrado dele. Estava em um processo de limpeza mental que incluía contar quantas horas eu não pensava, lembrava dele. Uma vez que já cometera essa fraqueza, queria perguntar a Helena, se ele se recordaria da data, mas ela também estava me ajudando a não mais me entorpecer com essa droga e eu levaria um esporro daqueles. Não iria desapontá-la.

Olhei em silêncio por um tempo pelo vidro da janela, quieta.

_Você vai me prometer que vai se divertir muito hoje, como nos velhos tempos! Nem que tenha que beber muito pra isso.

Eu ouvi a voz de Helena ao longe e virando o rosto ainda a peguei terminando as últimas palavras em um sorriso. Ela provavelmente estava falando frases de incentivo.

_É aqui, moço. _bateu o ombro dele com uma nota de cinqüenta e eu pulei fora do carro. Enquanto aguardava o troco, dei uma olhada no lugar. Era uma rua de cinco boates, todas com filas a perder de vista na porta.

As batidas sufocadas que vinham de dentro de cada um mostrava porque tanta gente esperava por diversão. À noite prometia!

_Duda! _ouvi uns gritinhos e logo encontrei um grupo de amigas na fila. Helena e eu corremos aos pulinhos sobre o salto e as abraçamos e trocamos beijinhos estralados no ar. _Onde está a fonte disso? _ Perguntei pra o copo de plástico na sua mão.

_Os meninos estão ali no carro, eles são entram depois... Vamos lá... _puxou-me pela mão antes que eu pudesse me dar conta que íamos para o grupo de amigos de Maurício sem camisa, exibindo seus corpos sarados, encostados em um conversível com o som alto.

Como eu podia impedir de vê-los? O término do meu namoro não iria obrigar ao resto do rompimento de todos os outros casais. Eles me olharam de cima em baixo e duas garrafas foram estendidas para o copo que levantei. Eu li o clima tenso nos olhares que trocaram e senti que estavam estranhos. Helena que conversara com as meninas, de repente, veio até mim e disse pra entrarmos logo e pegarmos uma mesa porque eu era a aniversariante e tinha que organizar tudo...

_Mesa?_ ri alto. _ A gente pode começar a se divertir aqui! _ bebi mais um gole e levantei o copo.

O riso que eles devolveram era um pouco tenso ainda e Helena me olhou com cansaço e pedido de súplica. Por que diabos queria entrar?

_Ok, ok, vamos pra fila. _ suspirei, pisquei para os meninos e dei um passo a frente pra atravessar a rua. Mas, os carros não paravam de passar.

_Dudaaaa!!! _ uma amiga do colégio apareceu do nada e me abraçou longamente, foi quando abri os olhos e olhei para frente, ainda sentindo seus braços me apertarem.

Lá estava ele descendo a rua em nossa direção. Já era o efeito do álcool, não podia ser tão rápido assim! Eu só bebera uma dose. Não, não viria até aqui hoje...

Engoli em seco e quando me soltei da minha amiga que não parava de tagarelar, encontrei todos os olhos fixados no ponto atrás de mim e logo disfarçaram. Helena transmitiu uma cara de raiva para um dos garotos do grupo como se este fosse o responsável pelo convite indevido.

_Ele é irmão dela e a boate não é fechada! Relaxa. _ falou baixinho quando eu senti aquele conhecido perfume se aproximar e Maurício parou na minha frente.

_Pô, não consegui estacionar! Fui lá no final da rua..._ resmungou. Ele também estava sem camisa, já alegre, com cabelo espetado com muito gel, uma corrente no pescoço as entradas musculosas aparecendo no jeans de marca cara. Ele se tornara um deles e já não se parecia com o menino que eu conhecera na escola.

Engoli em seco, lambi os lábios e, se antes estava com medo de atravessar a rua, agora me meti na frente do carro que buzinou e fui pra fila. Ouvi os passos de Helena atrás de mim. Meu coração disparara pela corridinha ou fora o efeito devastador da visão de Maurício.

_O que significa isso? _ perguntei de braços cruzados.

_Não olhe pra mim assim! Eu perguntei a mesma coisa agora pouco! _ fez um ar de incredulidade, sem entender como alguém ousou incluí-lo na comemoração. _ Ele sabia da data, deve ter descoberto com um amigo... Droga, droga! Mas, você não está abalada, conversamos muito sobre isso! Adorei sua saída por cima, ignorando-o. Está ótima, linda e nem liga pra ele, certo?

Não respondi e ela gemeu baixinho repetindo mais dez drogas.

_Você...

_Eu não sei de mais nada... _do meu rosto emburrado saiu um sorriso nervoso e incontido e muitas borboletas levantaram vôo no meu estômago.

_Helena, a Júlia está te chamando ali... _ ouvi a voz masculina atrás de mim.

_Eu estou na fila! _ ela respondeu com raiva.

_Mas, ela pediu pra ir lá... _ falou com voz de autoridade e ela me encarou para ter segurança de que eu ficaria bem. Consenti. _Não posso dar feliz aniversário para a minha irmãzinha?

Virei o rosto para o lado e o vi já de camisa, sorrindo. Canalha!

_Já está dando. _falei com ironia depois do "irmãzinha" no mesmo tom.

Maurício riu como se eu tivesse falado a coisa mais idiota do mundo.

_Sabe que não sou assim do tipo frio.

_Maurício... _ peguei seu braço e o copo de bebida balançou derrubando um pouco. _ Sabe o que você faz? _ aproximei meu rosto do seu pra que as outras pessoas não ouvissem. _ Vai pro inferno.

_Esse seu lado agressiva é novo? _ bebeu o resto da bebida e jogou o copo fora.

_Você quer levar um tapa na cara, seu... sem noção?

_Eu ainda não dei meu feliz aniversário. _lembrou-me.

_Nem chegue perto..._avisei, mas Maurício não interrompeu o gesto de me abraçar, envolvendo com suas mãos fortes minha fina cintura e colando meu ventre no seu rígido de tanta malhação. Tentei empurrá-lo, mas sua boca quente beijou o meu pescoço na zona abaixo do meu ouvido e minhas pernas se tornaram marshmallos. _ Você está linda como sempre. _E soltou-me para voltar ao seu grupo.

_Tudo bem? _Helena perguntou retornando ao seu posto ao meu lado.

_Não... _ falei com um fio de voz. _Eu quero ir embora...

_Aaaahhh, não vai mesmo!


(...)

O que vai acontecer nessa festa?

13/10/2010

Cap: 35 Não apareça lá. (Mau)

O ônibus seguia trepidando pela estrada em construção, de asfalto lixado. Puxei um pouco a cortina da janela e vi as árvores iluminadas pelo farol do veículo. Eu voltava para casa em mais um fim de semana. Mas, era só isso, eu voltava pra casa e nãos para... Engoli em seco, sentindo um descompasso no peito. Só o nome me fazia mal. O que tanto me trouxera vida agora era o peso amargo de uma saudade que se alimenta de si mesma e cresce.

Tudo começou quando voltei um dia do show com meus amigos e encontrei a mãe de Duda conversando com Emanuel, o guarda-costas em tom baixo na varanda dos fundos da casa. Ela lhe dava seu pagamento, mas a conversa parecia seguir para um tom menos profissional. Não daria bola se não tivesse ouvido o nome da minha namorada no meio.

_Eu sei que não vai ser esse último pagamento que vai te fazer ficar longe da Duda. _ ela afirmou e suspirou. _ Eu já notei, e não sou burra pra essas coisas, que vocês estão se gostando. Eu só não quero que arranje problemas pra minha filha porque ela é uma garota comprometida...

Comprometida comigo! E em que ela era mais esperta que eu pra enxergar o que eu não enxergava?

_...Depois desse seqüestro horrível, ela vai precisar de você mais um tempo e eu sei que vão acabar... se já não... Enfim, não se pode controlar uma paixão. Só quero que se cuidem.

_Sim, já aconteceu... _Emanuel revelou. _ Mas, eu não quero atrapalhar a vida dela. Eu sei que gosta daquele garoto, quero dizer, do seu enteado.

Aconteceu...? Repeti meio tonto, como se tivesse batido a cabeça.

_...Eu tenho consciência de que ela gosta dele, mas não é um amor saudável. Sua filha não é feliz completamente. Vive sozinha, triste, parece abandonada... Eu sei que ele é da sua família, mas ela merece muito mais que uma migalha de amor. Nem se pode chamar isso de amor, ele não tem medo algum de perdê-la. Mas, o sacrifício os une. E não há nada que resista a um sacrifício pendente de compensação. Só que esse retorno nunca chega e enche o copo, o copo está sempre vazio.

_Vejo que gosta dela pra ter percebido tudo isso. Mas, você quer encher o copo?

_Acho que quero. Mas, não sei se sou tão forte pra lutar contra essa história. Eu teria que ajudar a destruir isso e posso ficar bem debaixo dos escombros quando tudo cair. Gostaria de não ser o culpado de nada. Aí sim eu conseguiria fazê-la completamente feliz. Já está ficando tarde, eu tenho que ir.

_Sim, vai por esse corredor.

Eu não sai do lugar, como se estivesse com os pés colados no chão até que ela entrou na cozinha e leu meus olhos de terror.

_Mau? O que faz aqui?

Não respondi, minha mudez a fez abrir os lábios e desviar os olhos. Virou-se pra pegar água no bebedouro e engoliu rápido.

_E você, o que acha? _perguntei antes que fugisse.

_Como?

_Quem é melhor pra encher o copo?

_Mau, você não deveria ter ouvido isso...

_Quer que outro namore a sua filha? _falei com horror.

_Não, eu só quero que alguém a faça feliz.

_Eu não faço?

_Não, Mau. Você prometeu pra ela uma felicidade que só vai chegar de verdade daqui a muitos anos e ela vai esperar por isso. Isso que vivem não é felicidade, é saudade, tristeza, sofrimento.

_Não é só isso!

_Quando é 90%, é isso que fica como sentimento. Se eu pudesse, gostaria que a deixasse viver a vida dela com intensidade e brilho. Ela é linda, viva, alegre, mas parece uma planta sem água.

_Está incentivando que ela me traia.

_Você mesmo ouviu, Mau. Já aconteceu e isso não tem a ver comigo, é parte do que vocês estão vivendo. Deixe a Duda, se a ama mesmo, liberte-a. Um dia, quem sabe vocês podem até se reencontrar. Não continue a oferecer tão pouco...

_Eu não quero mais ouvir isso. _dei as costas e fui para o meu quarto.

O meu celular fez o toque de mensagem de texto. “Está aqui esse fim de semana, gatinho?”, era a garota com quem eu tive um pequeno encontro sem graça. Não podia condenar Duda pelo erro que eu também cometia. A gente estava em uma ligação apenas de sofrimento e distância, era isso? Ela chamou-me pra conversar e eu sabia que era a chegada do fim. Ela me dispensaria e eu sairia com a marca de um chute na bunda? Não sei o que deu em mim, mas quando ela disse: “Mau...” eu decidi que daria eu mesmo o golpe final:

_Duda, eu acho que a gente não anda bem e... _respirei pra achar força. _ eu queria pedir...

_Não... não... _balançou a cabeça.

_Duda, por favor, me escuta! _pedi, sem lhe dar chance.

_Eu não quero ouvir! _levantou-se pra escapar. Ela tinha me traído e agora não queria ser ferida?

_Escuta, eu sei que é duro, mas eu quero terminar. _desfilei-lhe o golpe.

_Não, não...

_Por favor, não torne tudo mais difícil. _ minha voz saiu bastante fria.

_Não tornar difícil pra vo-cê?! _riu.

_Eu não acabei...

_O que falta dizer?

_Eu sei que não vai querer olhar pra mim nunca mais... Eu... errgh, fiquei com outra pessoa... foi rápido, mas acho justo você saber. _ mostrei que antes eu já a tinha traído também.

_Você se apaixonou?

_Não quero falar disso.

_Não quer? Mas, eu quero falar disso. Eu quero falar que eu fiquei aqui te amando e te esperando todo esse tempo, agüentando tudo feito uma maluca, sim, porque só uma doida ia suportar esse amor insano a distância que só não mata porque...

_Duda, você está nervosa.

_Você quer que eu fique calma? Então, traz um antidepressivo pra mim, traz uma caixa... _perdeu o controle. Ela iria acabar comigo e estava agora irritada?

_Não era pra ficar assim.

_Como estava pensando que ia ser? Toca aqui, estamos juntos nessa? Seu cretino... _avancei pra cima de mim no sofá e meu pai apareceu pra nos separar.

_Sai daqui, Maurício. _ mandou e achei melhor ir para o meu quarto. _Cadê o segurança? Emanuel? _perguntou e este apareceu. _Leve-a pra casa, por favor. _ainda o ouvi de longe ordenar.

É assim bebendo da raiva, do orgulho ferido que fazemos as maiores burrices da nossa vida. Olhei a estrada novamente. As luzes já apareciam em pequenos pontos azuis, indicando que a cidade se aproximava. Na rodoviária, apenas meu pai me esperava. Pegou a mala, colocou a mão no meu ombro e abriu a porta.

_Você sabe que dia é hoje, não sabe?

_Como se pode esquecer? _ disse, retirando a boina da cabeça e mexendo no cabelo. _Como vai ser?

_Terá uma festa em uma boate. Ela já jantou com a gente, mas sabe como é? Prefere se divertir com os amigos. Aniversário agora é...

_Qual o nome da boate?

_Não, Mau...

_Ela deve ter mencionado.

_Por favor, você sabe o que fez! Ela estava tão mal que não acreditamos quando a vimos melhor, corada, sorrindo. Por favor não se meta...

_Qual é o nome da boate, foi isso que eu perguntei.

Ele ficou em silêncio, numa análise de consciência.

_Vocês jovens tem todo o tempo e toda a chance de fazer todas as burrices que quiser...

_Ok, o nome.

_Mas, eu não quero ser responsável por você machucar aquela garota de novo.

_Ela me traiu! _falei.

Ele virou-se, esquecendo o trânsito por alguns segundos.

_Não sabia? Nesses dois meses, ninguém te contou? _ disse irônico. _Aquela traidora...

_Agora mesmo não lhe digo. Está querendo se vingar... _desviou o assunto e não assumiu saber também.

_Já se passaram dois meses, hoje é o aniversário dela. Não apareça.

_Eu preciso!

_De quê?

_Dela.

Um suspiro pesado, um xingamento e ele revelou aonde ela iria.

_O que vai fazer?

Não respondi.

(***)

O que Mau vai fazer? Quero ouvir vocês.

26/08/2010

Cap 34: Abrindo a Janela outra vez (Duda)

Eu era uma folha seca que não podia voltar à árvore, nem ficar no meio do caminho. Sentada no chão do quarto, com a mesma roupa de ontem com um pouco mais de fome e ainda sem sono, eu me diluía inteira em lágrimas. As gotas não desciam escandalosas e com tremor, caíam pesadas até as coxas frias, sem inquietação.

_O que está fazendo aí? _ Helena perguntou quando entrou no quarto com o mesmo tom que reclamaria se visse seu cachorrinho na neve. _ Levanta e vem pra cá... _puxou meu braço que a seguiu por inércia, mas o corpo retesou, imóvel.

_Me deixa... _ falei em um sopro, olhando um ponto fixo através do vidro embaçado da janela.

Senti seus olhos sobre mim, me estudando, em um choque de incredulidade. Depois de um tempo, desceu até o chão e sentou-se a minha frente:

_Seu pai me pediu pra vir até aqui, me contou que ele terminou com você. Como ele descobriu do Emanuel?

_Não descobriu. _dei de ombros.

_Ah, não? Então, como...

_Ele tinha outra. _ri e olhei para o alto, tentando conter as lágrimas que não paravam de descer. Apertei os cantos dos olhos para ver se fechava aquela torneira. _ Disse isso na maior tranqüilidade e pediu que terminássemos.

_E você, na maior tranqüilidade aceitou e está aqui...

_O que quer que eu faça? Comece a arremessar o aparelho de jantar contra a parede?

_levantei-me e senti a dor na bacia e costas, depois de tanto tempo na mesma posição.

_É que não faz o seu tipo. Você não aceitou quando todos diziam que não podiam ficar juntos.

_E eu proponho o que para o meu namorado? “Olha, vamos fazer o seguinte, segunda e terça pra ela e os fins de semana, feriados e datas festivas pra mim, fechado?” _falei alto, irritada e andando pelo quarto. _ Eu estou com tanta raiva, tanta... _fechei os punhos e falei entre os dentes, o que fez Helena entreabrir a boca e arregalar os olhos com a brusca mudança. _ Eu queria matar aqueles dois!

_Não era essa cara de assassina que estava há alguns minutos.

Peguei um ursinho que Maurício tinha me dado na penteadeira.

_Isso não é prato, não vai... _Helena não tinha terminado de falar e eu tinha jogado o bicho de pelúcia na parede e depois chutado, pisado. _ Meu Deus, pare com isso, sua louca. Isso não é um octógono de luta. Ele não é o Maurício, ok? _puxou-me para a cama, mas trouxe o braço de volta, ajeitei o cabelo e continuei andando pra lá e pra cá. _
Quem é a vaca que conseguiu ser melhor do que eu?

_Ninguém conseguiu ser melhor do que você, Duda!

_Como não? Eu fiquei aqui sentada, esperando aquele filho da mãe desgraçado, traidor voltar pra casa, enquanto eu me virava pra me divertir sozinha, sair sozinha, viver sozinha... que merda de vida a toa. Porque eu tinha uma causa e eu perdi a minha causa!
_apontei para o meu próprio peito, mas pela cara de Helena eu começara a falar outro idioma e estava precisando de legendas. _ Com que direito ele pode terminar com uma pessoa que deu a vida, eu dei minha juventude, eu dei minha beleza, eu dei minha força...

_Eu perdi alguma coisa, ou você envelheceu trinta anos e está super em forma com algum shake?

_Helena! Olha pra mim! Eu fiquei fazendo toodo esse sacrifício pra aquele coração gelado de pedra maciça não pensar no meu martírio e me abandonar agora? Onde está o final feliz em um baile lindo, com valsa e tapete vermelho no dia da vitória.

_Desculpe, eu jurava que a gente estava falando de amor aqui, mas está parecendo uma mistura dia de Oscar para maratonistas de triatlo. Tudo não passa de uma conquista que você foi tirada fora por desclassificação?

_Exatamente! _ sorri, mesmo sabendo que ela não queria que eu assumisse.

_Duda, você estava caída no chão porque bateu a cabeça antes de eu chegar?

_Ele só tinha o direito de me amar, só amar a mim, eu é que me anulava...

_Duda? Onde você guarda seu orgulho aqui? Está em alguma gaveta? Naquelas caixas coloridas ali? Peraí que eu procuro pra você.

_Orgulho? _ ri. _O que eu vou falar pra as pessoas? Elas vão me olhar com aquela cara de “eu-sabia-que-ia-dar-errado”!

_Elas esquecem! E tem mais, depois desse olhar vai vir um “você-pode-ter-coisa-melhor”.

_Eu não quero nada, eu quero ele de volta, já pra cá, pro lugar de meu namorado.

_Foi com você que eu falei ontem no telefone? Porque me disse que queria muito que ele entendesse que pra você não dava mais. Só não contava com o reverso da moeda e só o fato dele querer terminar te fez ter uma crise de ex-namorada-psicopata apaixonada?

_Nunca ninguém vai entender o que é isso... _deitei na cama e coloquei a cabeça pesada no travesseiro.

_Você levou tempo demais pra externar isso, Duda. Agora, vai sentir tudo de uma vez. Não é amor que está sentindo, a raiva. É orgulho ferido... _ mexeu no meu cabelo. _Só que a raiva demora mais a passar, porque ela se nutre da própria lembrança. Toda vez que recordar, vai sentir rancor. Sabe o que é pior de tudo? Nada disso vai mudar a decisão dele. Você vai ficar magra, feia, descabelada, doente e ele? Não quer saber, quer seguir com a vida dele. Só quando se der conta de que, não importa o quanto sofra, isso não interessa pra ele, você vai começar a melhorar. Daí, bem depois, você vai sentir um desgosto necessário. Saber que amou uma pessoa que está completamente alheia ao seu sofrimento é uma boa pílula pra destroná-la. Leva tudo ao nível do irreversível. Quem pode querer voltar ao posto, depois de ter dado provas de que tinha chance de voltar e não voltou, de que ainda era tempo, mas não quis usar a última oportunidade por pura opção?

Fechei os olhos e fiquei ali quieta.

Um mês depois.
.

.

.

2 meses depois.
.

.

.

É difícil abrir a janela do quarto e perceber que não importa a sua dor, a vida não está nem aí pra ela, os carros continuam passando lá embaixo e tudo segue seu curso normal. Não importa que você opte por morrer, só o seu mundo pára. Todo o resto continua girando.
Senti a lembrança do que era ter fome.

Sai do quarto.



O livro já está acabando e vocês decidem o final:

a) Duda deve dar a volta por cima e mostrar pra Maurício que está bem.
b) Duda deve estar bem e Maurício voltar pra ficarem juntos.
c) Duda deve ficar bem e Emanuel ajudá-la a esquecer Maurício.
d) Duda deve ficar bem, com Emanuel e depois abandoná-lo pra ficar com Maurício.
e) Outro fim.

24/08/2010

Cap 33: O reverso da partida (Duda)

Eu tinha decidido, depois de uma noite sem dormir direito que iria dar um tempo com Maurício. Ao menos “dar um tempo” atenuaria o peso da decisão. Era como dizer, fique aqui e me espere, vou ali e volto. Mas, eu sabia lá no fundo que demoraria muito mais tempo pra voltar ou não voltaria. Havia dentro de mim um sentimento de mudança que não era seguido pelo meu namorado. Sentia como se caminhasse passos a frente e ele não conseguisse acompanhar o ritmo. Na verdade, quando entrara na carreira militar, Maurício é que dissera pra mim “fica aqui que eu volto”.

Mas, a decisão tinha de esperar, eu não tinha como pegar o telefone, ou parar na porta dele. Era preciso carregar comigo o coração dolorido por uma semana até aguardar seu retorno no fim de semana. Isso aumentava a necessidade de acabar logo com a angústia de manter aquele clima entre nós. No telefone, tentei dar sinais pra que ele puxasse qualquer assunto que culminasse em uma briga, mas nada, parecia o mesmo zumbi de sempre, cansado e alheio ao mundo. Nem preciso dizer que isso aumentou ainda mais o meu desanimo e desgosto, pingando a última gota de decepção.

Aos poucos, conforme os dias passavam, me dava a impressão de que seria mais fácil anunciar o término. Quando, Maurício ficou frente a frente comigo, porém, senti-me como se fossem fazê-lo um grande mal e eu não poderia impedir. Na realidade, eu iria lhe provocar uma dor que eu não desejaria a ninguém. Todos me condenariam por tê-lo feito sofrer enquanto nesse momento da formação só precisava de apoio.

_Mau...

_Duda _ falou junto e pegou na minha mão. Torci pra não começar nenhuma declaração de saudade que adiasse o discurso pronto e mudo na minha boca. _ Eu tenho uma coisa pra te falar.

_Fala. _dei espaço mais por educação e um pouco de nervosismo pelo que eu tinha que lhe contar.

_Duda... Eu queria te dizer uma coisa e... _engoliu em seco e ficou olhando para os meus dedos.

Meu coração de repente pareceu parar de vagarinho e eu apertei seus dedos entre os meus pra que me olhasse. Quem tinha que falar alguma coisa ali era eu!

_Duda, eu acho que a gente não anda bem e... eu queria pedir...

_Não... não... _balancei a cabeça em negativa. Ele não ia dizer que me deixaria!
_Duda, por favor, me escuta!

_Eu não quero ouvir! _levantei abruptamente.

_Escuta, eu sei que é duro, mas eu quero terminar.

Meus olhos se arregalaram e eu senti uma dormência na nuca. Meu corpo reagia completamente diferente a como seria coerente responder. Não era eu que esperava que ele entendesse que eu queria distância. Então, por que não ficava feliz com a concordância de que o melhor era terminarmos?

_Não, não... _era a única palavra que conseguia repetir para mim.

_Por favor, não torne tudo mais difícil. _ ele pediu.

Eu caí em uma gargalhada muda, apontando para o meu próprio peito com lágrimas nos olhos e todo o ar de consternação que conseguia apresentar:

_Não tornar difícil pra vo-cê?!

_Eu não acabei...

_O que falta dizer? _ pus a mão na cintura e joguei o tronco pra frente.

_Eu sei que não vai querer olhar pra mim nunca mais... Eu... errgh, fiquei com outra pessoa... foi rápido, mas acho justo você saber.

Senti o chão falhar e segurei a ponta da mesa atrás de mim.

_Você se apaixonou?_ perguntei, como se algum detalhe explicasse tudo.

_Não quero falar disso.

_Não quer? _balancei a cabeça para os lados. _Mas, eu quero falar disso. Eu quero falar que eu fiquei aqui te amando e te esperando todo esse tempo, agüentando tudo feito uma maluca, sim, porque só uma doida ia suportar esse amor insano a distância que só não mata porque...

_Duda, você está nervosa.

_Você quer que eu fique calma? Então, traz um antidepressivo pra mim, traz uma caixa... _comecei a gritar.

_Não era pra ficar assim.

_Como estava pensando que ia ser? Toca aqui, estamos juntos nessa? Seu cretino... _avancei pra cima dele com tudo sobre o sofá onde estava feito um bicho ferido e, nesse momento, surgiram pessoas por todas as portas da casa de Maurício. Seu pai, mais forte, foi o primeiro a me segurar pelos braços, mas ainda fiz força, porque queria agarrar o pescoço do seu filho com as unhas.

_Sai daqui, Maurício. _ sua ordem foi cumprida imediatamente. _Cadê o segurança? Emanuel?

Ele apareceu na porta e deve ter me olhado, eu não conseguia levantar o rosto.
_Leve-a pra casa, por favor.

Eles estavam mesmo me despachando como um pacote entregue na porta errada? Caminhei até o carro ainda zonza e sentei no banco de trás agüentando pra não vomitar. Emanuel não disse nenhuma palavra, nem nos olhamos através do retrovisor. Eu cheguei em disparada para o meu quarto e bati a porta.

Eu caí em um choro profundo e vindo de um estado interno de loucura. Nem eu mesma compreendia aquela Eduarda em colapso. Ela não estava dentro de mim até o momento em que eu iria terminar e ele resolvera roubar o meu discurso. O orgulho de ter sido deixada era tão pior do que eu imaginava que ele sentiria que não lhe abstive nem pouco de ver a minha reação de dor.

Era como se ter esperado esses anos não tivesse valido nada. Como se a óbvia profecia de que não daria certo estivesse comprovada agora. Se eu tivesse terminado, eu mesma teria dado a escolha sobre a minha vida. Mas, na estação, eu fui deixada pra trás. Maurício pegara o trem da vida e não quisera saber como eu me sentiria sentada ali sozinha.

***


O que a Duda deve fazer?

a) Ficar com Emanuel pra provar ao Maurício que está muito bem.
b) Ficar sozinha pra o Maurício ver o quanto está sofrendo e voltar.
c) Nada disso... poderia ser...

10/06/2010

Cap 32: Ninguém precisa saber (Duda)

Emanuel me levou em segurança até o seu carro e não demorou pra chegar os policiais, repórteres e se fazer um cordão humano de curiosos. Ele me avisou que precisava cuidar de algumas coisas e que eu ficaria bem em casa. Tirou a cabeça da janela do carro e, antes, acariciou minha bochecha prometendo me encontrar em breve. Meu pai ligou o motor e me levou embora.

_Você convidou o Emanuel pra almoçar sem me falar? _ perguntei.

_Ele chegou com as cervejas. Querida, está preocupada com isso agora? _ riu alto.

Mantive-me encolhida no banco e quando cheguei em casa, encontrei Maurício me esperando com minha mãe. Abracei-o e senti o cheiro forte de álcool. Olhei-o intrigada e preocupei-me, quando deveria ser ele naquele momento o preocupado comigo.

_Onde estava?

_Em um churrasco com os amigos. _ falou completamente grogue. Duvidava que tivesse vindo até ali com as próprias pernas. Foi quando me virei pra minha mãe e supus tudo em um único relance.

_Não me disse nada sobre isso...

_Querida, como foi que tudo aconteceu? _ ela tomou a frente e vi Maurício em segundo plano, olhos injetados, aéreo, risonho e cambaleante. Um adolescente irresponsável que me trazia cansaço só de pensar o quanto precisava segurar sempre as pontas pra ele.

_Duda? _ Emanuel surgiu no portão e falou perto de mim que deveria depois comparecer à delegacia. Eu fiz um aceno positivo com a cabeça e me senti novamente segura em vê-lo.

_Obrigada, Emanuel. Você foi um herói hoje. _ minha mãe abraçou-o com muita força e emocionada.

_Pena que o dispensou há uma semana. _a voz de Maurício soou mais ao fundo carregada de um veneno que parecia ter bebido de uma garrafa inteira. Todos o olhamos. _ Mas, ele fez o seu papel de graça de bom agrado, não é?

Emanuel passou os olhos de Mau para mim e segurou as palavras por alguns segundos.

_Eu só quis ajudar...

_Minha namorada não precisa de sua atenção gratuita e barata!

_Eu acho que está precisando de um café pra se curar do porre e esfriar a cabeça. _ Emanuel disse com voz mais grave e superiora.

Ele, então, não estava mais trabalhando pra minha mãe e mesmo assim continuou ao meu lado? E me levara ao cinema? A cadeia de pensamento desabrochou um sorriso em minha boca pequeno e involuntário.

_Você bem que gostou, não é Duda? Até aproveitou pra sair com ele e se divertir? _ Mau resmungou como um garoto mimado e rancoroso. Senti cansaço, raiva, piedade e desânimo pra começar uma briga e lhe explicar que não sabia de nada. _ Eu vou embora daqui! _ gaguejou e saiu tropeçando nas pernas. _Tenho que voltar pra academia...

E me deixar novamente sozinha... Completei mentalmente com tristeza. Não fiz nada pra impedir. Hoje, eu não iria mais me debater contra nada. A experiência de risco de vida me deixara serena, pensativa, leve.

Minha mãe se ofereceu pra chamar um táxi na rua e colocá-lo dentro de um. Depois, pediu licença com a desculpa de que tinha que falar com meu pai e me deixou sozinha com Emanuel na varanda de casa. Eu continuei em pé, recostada em uma coluna de cimento.

_Eu posso te explicar... _ ele começou, mas eu fiz o gesto pra não continuar.

_Não tem problema. Depois do que houve, eu não quero discutir com ninguém...

_Que bom que eu pude te salvar.

_Você me salvou mais do que pensa. _ deixei a confissão fluir.

_Eu sei disso e queria...

_Queria? _ajudei-o.

Ele bufou, engoliu em seco, buscou desviar os olhos, estava relutando contra os próprios sentimentos. Será que imaginava que o mesmo se passava comigo?

Meu coração era um tambor retumbando na parede do peito freneticamente. A veia no meu pescoço devia estar supostamente visível, saltando com o fluxo de sangue quente e veloz que corria por meu corpo. Quando Emanuel deu dois passos em minha direção não parecia mais disposto a esperar nem mais um minuto.

Ia acontecer de uma vez por todas, ele já anunciava em seus olhos fixos em minha boca. Eu tinha, mas não queria fugir. Apertei as duas palmas lisas de suor nas costas pra não dar qualquer insinuação de que iria participar de seu ato. Mas, a minha própria presença muda era uma permissão suplicante. No último passo que o colocou alguns centímetros do meu corpo o coração doeu em descompasso. Balancei a cabeça pro lado, ri e abaixei o rosto, deixando os cachos escorregarem dos ombros e soltando-se no ar, como molas douradas. Eu não devia ter lhe dado aquela deixa porque os segurou de uma só vez, enchendo as mãos e os afastando pra trazer meu rosto pra si. Suas pupilas azuis estavam um mar escuro e perigoso. Seu hálito quente, saindo entre os lábios vermelhos e desenhados com perfeição aqueceram os meus, provocando um feitiço de entreabri-los como adormecimento. Foi preciso me morder, mas ele soube esperar que eu os deixassem receptíveis aos seus.

Emanuel apertou todo o seu corpo contra o meu já recostado na coluna e o atrito deixou todos os meus nervos como suspensos por pinças. Sua boca febril beijou meu pescoço e minhas pálpebras caíram. Puxei com força o ar enchendo meus pulmões de oxigênio. Suas duas mãos fechadas na minha cintura me colaram em seu abdômen. Ainda debilmente achei conseguir dar um passo atrás e o espaço oferecido foi preenchido por suas pernas entre as minhas, elevando minha coxa. Não era mais humanamente suportável deter as minhas mãos, que se agarraram a sua camisa como se fosse o único fiapo de pano no abismo pra me salvar da queda em que eu girava e girava de desejo. Suspendi-a um pouco, eu queria pele, só um contato vivo. Apertei com unhas e garras a sua cintura acima do cós do cinto e ele entendeu com uma provocação e circuncidou o meu pescoço com sua boca e língua como se rodeasse toda a bola de um sorvete com uma única lambida e do outro lado encontrou o lóbulo da orelha. Sugou-o repuxando daquele ponto os fios invisíveis conectados às minhas entranhas, contraindo-as.

Segurei-me por seus cabelos, aproveitando pra dedilhá-los com vontade adiada dezenas de vezes, pois agora era a única hora, como voltar atrás? Eu também não queria. Pensava apenas nesse desejo que se rompia como um vulcão adormecido e cheio de lavas fumegantes. Contraí a testa e gemi com uma dor aguda e muda de não me sentir no direito de tanto prazer. Abaixei o rosto e friccionei minha bochecha contra a sua, encontrando a cavidade da clavícula, de onde vinha o cheiro amadeirado e masculino da sua colônia que sempre ficava em seu rastro. Também pequei, depositando ali beijos profundos e úmidos, com saliva, sal e volúpia. Meus seios macios contra a parede do seu peitoral se espremiam sem me deixar respirar, afastei para um golpe de ar colando nossas testas. Nossos olhos se enfrentaram e era o momento de decidir me atirar naquelas ondas revoltas, ou me satisfazer com o calor marginal da areia.

Meneei a cabeça para o lado em um ângulo de hesitação e sua mão segurou meu maxilar, me oferecendo ajuda pra entreabrir a boca.

_Óh, meu Deus... _ gemi aspirando as palavras em uma voz rouca e baixa.

Eu ia desistir, ele via nos meus olhos a trilha de flashs de condenação, então preencheu o único espaço vazio entre nós com sua boca entre a minha. Por alguns segundos eu o deixei seguir sozinho, mas porque não desfrutar da paisagem quando já se está lá? Então, virei a cabeça para o lado e libertei minha língua entre a sua, beijando de verdade. Envolvi seu pescoço, como seus braços se fecharam em minhas costas e consumi seus lábios como a melhor das delícias.

O mundo era silencioso e um borrão desfocado atrás de nós. Éramos o primeiro plano, o cume, o extremo de tudo. Não se pára um tornado, a única coisa a se fazer é deixá-lo passar. Então, giramos naquele rodamoinho de emoção. Eu não era mais de ninguém, só de mim mesma e esse ser independente que acabava de se sentir autônomo aceitou o carinho de Emanuel e lhe ofereceu os lábios com paixão. O tempo caiu sobre nós como a tarde escura que nos envolve e vem acordar-nos de nosso sonho com a luz do poste que acendeu automaticamente.

_Duda..._ ele brinca com um cacho do meu ombro. _Foi só entre a gente isso... Não se machuque por mim. Eu te dei livremente e é só nosso...

Nunca o vi dizer algo com voz tão profunda, ao mesmo tempo com pouco sentido, mas senti pena da sua posição. Sabia que só podia ser um beijo. Ou eu deveria revirar o mundo de cabeça pra baixo pra provar outra vez o mesmo.

Fiz que sim com a cabeça e disse que precisava entrar. Passei pelos meus pais que conversavam na sala sem comentários ou pausa. Entrei direto no meu quarto e me encontrei com minha cama. Minha mãe apareceu e me informou que iria pedir pra Emanuel me proteger por mais um tempo até eu me sentir segura novamente. Poderia ter recusado, dito que me cuidaria bem sozinha, que isso não seria eterno e eu tinha que me acostumar a não ter uma sombra. Mas, calei pura e simplesmente porque meu coração era fraco e covarde demais pra ter um pingo de orgulho e decência. Eu queria que Emanuel estivesse por perto e precisava daquela situação arranjada pela minha mãe para não parecer que fora um pedido meu e, sim um contrato de trabalho.

Deitei no travesseiro macio e me enrolei. Fechei os olhos e novamente estava em pensamento na varanda da minha casa, sentindo Emanuel tão perto da minha alma como nunca deixei alguém estar depois de Mau. Uma canção me veio a cabeça: “Eu gosto tanto de você/ Que até prefiro esconder/ Deixo assim ficar/ Subentendido/ Como uma idéia que existe na cabeça/ E não tem a menor obrigação de acontecer/ Eu acho tão bonito isso/ De ser abstrato baby/ A beleza é mesmo tão fugaz/ É uma idéia que existe na cabeça/ E não tem a menor pretensão de acontecer/ Pode até parecer fraqueza/ Pois que seja fraqueza então/ A alegria que me dá/ Isso vai sem eu dizer/ Se amanhã não for nada disso/ Caberá só a mim esquecer/ O que eu ganho, o que eu perco/ Ninguém precisa saber.”

Eu poderia dizer a Maurício que estava confusa e abrir meu coração. Mas, eu não estava confusa. Eu gostava dos dois por motivos diferentes, de formas diferentes. E o meu coração não era completamente de Maurício. Havia uma parte nele que guardava segredos e confissões só minhas. Não queria dividir minhas perdas e ganhos. Ninguém precisa saber.



O que acha?

a) Duda deve beijar mais uma vez Emanuel.
b) Maurício terminar com Duda pra ela sentir sua falta.
c) Duda deve ficar com os dois pra escolher de quem ela gosta de verdade, sem machucar Mau desnecessariamente.
d) Deve entrar outra personagem na vida de Mau também.

05/06/2010

Cap 31: Pelas costas (Mau e Duda)

(Mau)

Chegar a casa era uma sensação boa de tempo não interrompido. Eu podia jurar que a comida posta na mesa era pra mim, vindo da escola, ainda de uniforme branco e cinza. O cheiro de alho e o suco suando na jarra ao lado da salada verde, a televisão ligada no Globo Esporte me fizeram sorrir. Agora, o uniforme que eu usava era outro e a escola também bem diferente.


Vinha de caminhos mais distantes, mas todas as vezes que abria a porta da sala podia sentir a mesma atmosfera. Nada mudava para mim. Os móveis no lugar, o meu quarto o mesmo. Mas, quando olhava as pessoas, sentia-me como parado o meu relógio interno, enquanto que elas sim tinham mudado completamente. Minha madrasta aparecera de cabelo mais curto e ruivo, apressada para sair. Trocamos dois beijos e um tchau.

_Hei, espere. _ chamei, lembrando-me de algo muito importante. Ela se virou com atenção, eram muito raras as vezes em que nos dirigíamos um a outro sem ser por cumprimentos formais. _ A Duda me falou de um guarda-costas que agora a segue...

_O Emanuel? _ franziu a testa.

_Deve ser esse o nome...

_Ela nunca tinha falado dele pra você? Só falou agora? _ seu ar era de estranheza e meu estomago se moveu com o pouco de suco gástrico que tinha do café da manhã que tomara na casa de Duda. Então, ela já tinha aquele armário nos seus ombros por muito mais tempo e eu não sabia de nada! Enquanto, me dava conta dessa conclusão, sua mãe olhou para os lados, buscando palavras, depois encontrou uma saída perfeita pra defender sua filha, o que era bem estranho, visto que se qualquer cara roubasse Duda de mim, ela ficaria feliz por nos ver separados. _ Bom... ela não quis te preocupar e preferiu esperar pra falar pessoalmente.

_Hum... _ foi só o som que consegui fazer.

_Você não ficou punido e depois teve que fazer vários treinos para as Olimpíadas e...

_E não vim nos últimos fins de semana, sim eu sei...

_Pronto, foi isso! Mas, por que está preocupado, não entendo.

Aquilo era alguma ironia perversa que eu precisava debater? Duda era minha namorada e estava andando por aí com outro cara, enquanto eu não podia fazer nada!

_Como viu Emanuel? _ ela quis saber.

Eu deveria tê-lo visto na cama com Duda! Que pergunta idiota. Se ele era seu guarda-costas...

_Ele não trabalha mais pra mim, isso é que eu não entendo...

Dessa vez, o que sentira fora um frio na barriga. Medo. O que eu estava imaginando podia ser bem pior. E sua mãe não estava de ironia, mas confusa:

_Eu já o tinha dispensado desde o domingo passado, quando achei que não era mais necessário... _pareceu falar alto sozinha consigo mesma, tentando entender a situação. _ Ela deve ter-lhe explicado direito que eu estava com um caso que me trouxera algumas ameaças a minha família, então, preferi para sua segurança deixá-la sob olhar de um profissional.

_Profissional? _ essa era a vez de eu falar sozinho comigo mesmo.

_Se ele estava com ela, ontem... Você não chegou ontem? Então, não sei, pode ter esquecido algo na casa dela... ou...

_Tudo bem. Obrigado. _ virei as costas e me dirigi à escada que levava ao meu quarto.

A voz de Duda veio de dentro da minha memória: “obrigada por me acompanhar no cinema, você é bem divertido”. Respirei profundamente, sentindo o ar arder no meu peito. Ela tinha ido ver um filme com seu ex- guarda-costas, enquanto eu estava estudando em outro estado?

Peguei o porta-retrato que viera parar na minha escrivaninha desde que se desfizeram seu quarto na minha casa. Seu sorriso doce e cândido era o mesmo que encontra em seus lábios ontem à noite. Teriam eles beijado a boca de outro e depois a minha? Meu coração descompassou como quando estou chegando ao meu limite nos treinos de corrida. Como aquela... aquela...

O celular tocou e eu atendi:

_Fala.

_Oi, Mau. _disse meu amigo. _O pessoal vai pra praia tomar uma cerveja. Ta afim?

_Te ligo depois do almoço e te encontro. Tranqüilo? Brasil. Tchau. _ desliguei.

Eu faria tudo que tivesse vontade, não era isso que ela fazia longe de mim e nas minhas costas? Tomei banho e almocei sem fome.

A casa e os objetos eram os mesmos, estavam no lugar. Eu me sentia quase o mesmo. Mas, as pessoas, essas não. Elas pareciam passar anos na minha frente. E minhas vontades de curtir lugares, viagens e sair pareciam sempre estacionadas no tempo. Sentia sempre aquela adrenalina de querer fazer tudo de uma vez e agora tinha o álibi de Duda poder estar me traindo.

Liguei pra seu celular, mas não me atendera. Disquei o número da sua casa e seu pai disse alô. Pedi pra chamá-la, mas disse que tinha ido ao mercado. Ouvi uma voz de fundo e perguntei se estava sozinho.

_Um amigo veio almoçar... _respondeu com a boca longe do fone. _ Isso, pode deixar a cerveja ali no barril. Já está com gelo. Obrigado, Emanuel... O jogo já vai começar.

_Obrigado, então, ligo pra ela depois. _ disse.

_Ah, ta. Liga para o celular dela.

_Está desligado. Obrigado.

Já era a segunda vez que ouvia o nome daquele cara no dia: Emanuel. Primeiro soubera que estava fazendo serviços gratuitos de proteção a minha namorada e agora tinha sido elevado ao posto de amigo do meu sogro, ganhando a cadeira de honra pra assistir o jogo na televisão.

Eu sentia-me roubado, traído, enganado, trapaceado e com muita, muita raiva e decepção.

***

(Duda)

No dia seguinte, Maurício foi pra casa ver a família e eu fui até o mercado sozinha comprar algumas coisas para o almoço de domingo com meu pai. Na saída do estacionamento, parei em um sinal e alguém bateu no vidro do meu carro. Olhei para o lado e vi um homem de jaqueta preta com uma arma na mão. Apesar do vidro escuro, eu tinha certeza que ele poderia me ver. Minha primeira reação seria acelerar e fugir. Mas, o cruzamento na minha frente provocaria um acidente.

Não sei como, mas lembrei das instruções de Emanuel assim que começara a trabalhar como meu guarda-costas. Ele me ensinara a nunca reagir. Segundo seu passo-a-passo em um assalto, eu não poderia movimentar a minha mão pra não parecer que buscava uma arma. Alguns criminosos são capazes de atirar a queima roupa, dependendo do seu nível de adrenalina. O meu celular estava entre as minhas pernas. Olhei o sinal mais uma vez pronto pra abrir. Se eu acelerasse, ele também poderia atirar. Mais uma vez a voz de Emanuel na minha mente me dizendo que não era pra reagir. Puxei o ar para os pulmões e levantei a mão esquerda fazendo sinal pra que esperasse que eu abriria o vidro. Eu só tinha alguns segundos pra fazer um pequeno gesto que me salvaria. Deslizei a mão entre as coxas e segurei o celular. Apertei com força um botão externo que rediscava para o número de Emanuel. O aparelho estava programado pra avisá-lo que eu estava em perigo quando o acionasse. Era um alarme de emergência combinado entre nós e eu esperava que entendesse o aviso. Soltei o celular e levantei agora a mão direita. Soltei o ar sem qualquer certeza que o chamado por Emanuel tinha dado certo.

_Vai para trás, agora! _ o homem berrou comigo e abriu a porta, me jogando lá dentro.

Minhas mãos geladas suavam frio e tremiam. Todo meu corpo parecia em convulsão. Controlei a respiração e lembrei que não devia aparentar desespero, nem olhar para o ladrão. Apenas cooperar com tudo pra sair viva.

Como minha mãe podia ter dispensado Emanuel, se eu ainda estava em risco?

_Qual o seu banco? _perguntou.

Ele queria dinheiro? Então, nada tinha a ver com as ameaças à minha mãe? Um seqüestro relâmpago!

Antes que eu dissesse, ele revirou minha bolsa no banco ao lado e abriu minha carteira. Eu não tinha voz, nem ação, apenas me abraçava, muda.

_Você vai ficar quietinha, senão eu vou encher sua boca de bala, entendeu?

Fiz que sim com a cabeça.

_Nós vamos a três caixas eletrônicos.

Mais uma vez movimentei a cabeça afirmativamente enquanto ele dirigia em direção a agência bancária mais próxima.

_Sai do carro, saca o máximo que puder e volte aqui, vou estar com o revólver apontado na sua direção.

_Hum-hum. _ peguei o cartão com as mãos muito trêmulas e saí do carro. Minhas pernas estavam tão moles que eu duvidava que pudesse caminhar.

Apertei o botão da porta de vidro do banco e entrei. Evitei olhar o guarda pra não aparentar nervosismo. Eu não conseguia distinguir a seqüência certa de letras, pois estava com a mente completamente bloqueada. As mãos tremiam tanto que precisei apertá-las contra o estômago e limpar o suor.

_A senhora está bem? _ perguntou o guarda no canto direito.

_Estou! Fique longe! _ falei alto sem virar o rosto. Não podia deixar que percebesse que mentia, nem dar a entender ao bandido do lado de fora que pedia socorro ao segurança. _ Só briguei com meu namorado. Estou um pouco abalada, nada demais.

Vi pelo canto do olho que averiguava se tinha alguém do lado de fora me esperando. Aqueles homens eram treinados pra isso e eu estava tentando enganá-lo sem sucesso. O guarda usou seu bom senso e intuiu que eu realmente não estava normal. Será que captara algum movimento suspeito lá fora? Quando já estava ao meu lado, ouvimos tiros e a primeira reação foi nos abaixar. Os vidros da agência vieram abaixo. Protegi meu rosto com a mão e depois tapei o ouvido.

_Não me mate! Eu não fiz nada! _ chorei em desespero.

Quando os tiros cessaram, tomei coragem e abri os olhos apertados. Olhei pra frente e vi o homem de jaqueta preta que me sequestrara deitado no chão do estacionamento. Emanuel o arrastava pelo braço no chão de cimento, formando um rastro de sangue. Ele o chutou com força e deu um soco em seu rosto, parecia uma máquina furiosa de matar. Pensei que fosse dar um tiro de misericórdia, mas Emanuel permitiu que ficasse encostado na parede sucumbindo.

_Bem que eu percebi que ela estava muito nervosa. _ disse o guarda, assim que Emanuel deu uma corridinha em nossa direção.

_Eu peguei o desgraçado. _ Emanuel respondeu para o guarda, apontando pra fora. O segurança foi ver o bandido, comunicando a segurança pelo rádio.

_Emanuel. _sentei no chão e estendi os braços.

_Está tudo bem, minha linda. _agarrou-me com força e me apertou contra si com força. Senti finalmente um alívio e comecei uma crise de choro, como se de repente eu caísse na real o que estava acontecendo. Era um ataque tardio e descontrolador. _Você ouviu minha ligação? Eu fiz como me ensinou.

_Ouvi sim. Fiquei muito preocupado. Eu liguei pra a empresa que rastreia seu carro e vim feito um louco pela rota... _ afastou os cachos do meu cabelo pra ver meu rosto.

_Ele podia ter feito tanta coisa comigo... _ solucei.

_Eu não deixaria, você sabe. _ sorriu pra quebrar a gravidade da sua expressão e me tranquilizar. Era o sorriso mais lindo e doce. Como eu pude ficar longe daqueles olhos azuis e amigáveis?

_Você abandonou o cargo de anjo da guarda. _ toquei seu rosto com a mão e meu dedão roçou seu lábio inferior.


***

Como será o próximo capítulo?

a) Duda beija Emanuel efusivamente, mas depois fica arrependida e não sabe como lidar com a situação nova.
b) A polícia chega e Duda é levada para casa, onde encontra com Maurício e fica ao seu lado, ainda mais apaixonada.
c) Duda volta pra casa e lá encontra Maurício, querendo explicações. Emanuel é colocado na berlinda pra se explicar por que continuou sendo o guarda-costas de Duda até aquela semana, se tinha sido dispensado antes. Ela se sente traída e briga com os dois.
d) Nada disso.

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02/06/2010

Cap 30: Pega de surpresa (Duda)

Quando olhei pra Maurício na soleira da porta da minha casa, senti-me uma ladra que acaba de cometer um crime terrível. Mas, tudo não passava de percepções silenciosas do meu coração culpado. O que Mau acabara de ter visto? Apenas eu me despedindo do meu guarda-costas. No entanto, qual a palavra certa pra desfazer da cabeça dele a foto que acabara de tirar da cena? Era esse quadro que usaria pra interpretar o que quisesse sobre o homem que estava ao lado da sua namorada.

Dessa vez, senti uma onda de vaidade que inflou meu ego. Eu desejava que Mau tivesse uma pontinha de medo de me perder e lá estava a grande oportunidade de lhe colocar uma pitada de dúvida. Antes de dar qualquer sorriso superior, me toquei que estava usando Emanuel. Foi quando olhei para o lado e o vi procurando alguma coisa no chão. Um buraco pra cavar?

_Amor... _ beijei Mau, mas parecia agarrar-me a uma estátua de mármore, pois estava petrificado de raiva. Só apertou-me pela cintura com extinto de disputa animal aflorado. _ Esse é o meu guarda-costas. Minha mãe colocou um na minha cola... _ falei baixinho, mas depois me toquei que os ouvidos aguçados de Emanuel não deixariam escapar o cochicho.

Isso é o que eu lhe dava em troca, depois da noite super divertida que acabávamos de ter? Eu podia me fazer de desentendida e bancar a protegida de seus favores profissionais, mas eu tinha o senso moral de que era a maior cretinice possível, na frente do meu namorado, rebaixá-lo a alguém com quem sou obrigada a andar. A verdade que eu precisava mostrar para Maurício não era a mesma que eu sentia com Emanuel. Eu tinha que escolher qual das verdades seria oficial.

_Até amanhã. _ Emanuel já estava de costas quando me virei pra dizer que não precisava sair assim. Ele tinha ficado chateado e isso doeu em mim.

Senti a mão de Maurício me puxar pelo braço e eu naquele instante era um boneco sendo deslocado no espaço, minha consciência estava abalada pelo que acabara de fazer, melhor, desfazer de Emanuel. Que sujeira! Como eu tinha duas caras?!

_Duda, estou falando com você!

Pisquei o olho e foquei no rosto de Maurício. Mecanicamente, abri um sorriso e o abracei pra que não visse minhas feições graves.

_Que saudade. _ disse. _ Vamos entrar? Chegou faz muito tempo? Como foi a viagem? Vai ficar aqui todo o fim de semana?

Enfileirei várias perguntas pra não dar espaço pra outro assunto e abri a porta da sala. Antes que respondesse a terceira, eu já estava na cozinha me oferecendo pra fazer um sanduíche pra ele. Puxei um pão, comecei a passar mais manteiga do que devia, empilhei queijo, presunto...

Maurício me fez largar a faca e me puxou para si. Oh! Eu tinha dado na telha? Ele beijou meu pescoço e eu senti que estava tudo bem. Um suspiro silencioso. Vi meu celular ainda no silencioso piscando a luz na bancada da cozinha. Fingi não perceber. Agradeci por ter esquecido de tirar do silencioso desde o cinema. Uma curiosidade e culpa me fez querer ver o que era.

_Amor..., errr... _ limpei a garganta. _ Não quer tomar banho? _sugeri. _ Está um calor... É o tempo de eu preparar isso aqui.

_Eu pensei em tomar banho depois...

_Ah! Fica cheirosinho pra mim, fica?! _ fiz um beicinho e ele se foi. Eu sou um monstro psicopata. Cheguei a conclusão já com o celular na mão e o coração pulando.

Era uma mensagem do Emanuel:

_Acho que não vou mais trabalhar pra você.

Eu senti que me coração caiu no pé. Como assim?! Tudo isso por causa do mal entendido de Maurício?!

Não aguentei esperar. Disquei o número dele. Eu tinha que arriscar. O barulho do chuveiro era meu sinal de que a barra estava limpa.

_Não entendi sua mensagem. _ falei de cara.

_Não, meu anjo. _ disse com voz doce e plácida. _É só que sua mãe me dispensou já. Tarefa cumprida.

_Isso quando?

_Agora pouco... _ falou e eu podia jurar que mentia.

O chuveiro foi desligado e ligado novamente. Fechei o olho e cocei a testa. Minha mão suava frio. Essa coisa de administrar dois caras era trabalho pra especialista!

_Hum... Nem sei o que dizer... Ãnh... Posso te ligar amanhã?

Meu deus?! Eu estou me ouvindo mesmo? Devo me internar!

_Tudo bem. Beijos, boa noite.

_Beijos. _desliguei.

Maurício apareceu na cozinha de cabelo molhado e sem camisa. Seu abraço quente e cheiroso era tão acolhedor, mas meu coração estava quebrado como um relógio de molas soltas. Eu não era boa pra me apaixonar por dois ao mesmo tempo. Será que Mau entenderia, se eu pedisse pra ir embora e que me deixasse sozinha essa noite pra pensar?

Agora, estávamos juntos, mas bastava algumas horas e novamente partiria. Enquanto isso, eu sentiria falta de outro. Mas, naquela guerra, não podia ter um coração neutro. Era certo amar apenas um. Só que a vida não estava sendo justa comigo pra ser tão moral assim. Eu precisava de carinho e de atenção. Meu coração, nesse ponto, estava sendo até bem coerente. Guardei meus conflitos só pra mim. Nem um dos dois precisava saber.

No dia seguinte, Maurício foi pra casa ver a família e eu fui até o mercado sozinha comprar algumas coisas para o almoço de domingo com meu pai. Na saída do estacionamento, parei em um sinal e alguém bateu no vidro do meu carro. Olhei para o lado...


***

O que vai acontecer no próximo capítulo? Você ajuda a continuar a estória:

a. É Emanuel que estava passeando do moto e a encontrou.
b. É um assalto e ela vai chamar Maurício quando ficar sem o carro.
c. É um assalto e ela vai chamar o Emanuel quando ficar sem o carro.
d. Nada disso.

09/05/2010

Cap 29: Gostar do que te faz bem (Duda)

Trilha Sonora do capítulo>>

O que é namoro, se não relativo, quando se está (nunca se está) com um militar? Você sabe que é só dele, mas essa ligação é uma linha reta, longa e invisível sustentada pela leveza da textura de uma teia de aranha, que pode oscilar com o vento e, praticamente, qualquer pessoa romper por passar no meio, inadvertidamente.

Emanuel não enxergava o fio suspenso e se aproximava cada vez mais do ponto em que a ligação cortava o caminho de um lado a outro. É como se a dona aranha-vida fosse tão burra que não percebia que jamais deveria colocar sua teia ali, onde qualquer um podia estragar seu árduo trabalho, sem o menor respeito ou consideração.

_Para aonde vamos? _ Emanuel olhou-me por cima do teto do carro lustrado.

Eu não respondi por um tempo, não que não soubesse o destino, mas que de repente notara a pessoa em que ele conjugara o verbo. Eu não ia, nós íamos. Essa diferença ia se dissipando como fumaça no espaço pouco a pouco. Antes ele era só o meu perseguidor imperceptível, depois virou minha sombra e agora já andava ao meu lado. Nada disso acontecera sozinho, eu tinha culpa. Esse passo a frente encurtando nossa distância fora dado por mim em uma noite quente e chata da sexta-feira passada com Helena ao meu ouvido pelo telefone:

_Não pode ficar em casa por que o Mau não vem te ver! Você é jovem, linda, inteligente... _Quando entramos nesse ponto da discussão minha amiga é capaz enumerar até cem pra ganhar tempo e achar um jeito de me fazer enxergar que deveria seguir suas idéias, ou se convencer que estava me oferecendo o melhor. Mas, dessa vez, ela parara na terceira qualidade e, em vez de uma sugestão, interrompera o raciocínio com uma pergunta em tom de irritação. _Você gosta mesmo do Mau?!

_Gosto... _ respondi monotonamente, olhando através do vidro da janela da sala Emanuel encostado na pilastra, falando ao telefone. _... Por que acha que estou em casa?

_Porque não gosta de si mesma!

_Ah! Ãnh... _ dei um pigarro, colocando o cacho atrás da orelha, virei para o lado, disfarçando que estava olhando diretamente para as costas de Emanuel. Ele me pegara em cheio fazendo essa inspeção. _... É, ãnh... o que disse mesmo? Desculpe eu...

_Você está tomando aquela droga de antidepressivo de novo, Duda?! Se é pra ficar seca, que diabos, faz aquela dieta que eu lhe falei...

_Não estou tomando! Se bem que dei uma engordadinha. _caí sentada no sofá.

Emanuel abriu a porta da sala e entrou. Antes, ele ficaria lá fora até ser convidado. Antes, eu nem sentiria falta. Antes, não era como agora. Meu coração se remexeu dentro do peito e tive medo. E eu sorri, pra disfarçar tive que rir, abaixando a cabeça e apertando a almofada contra mim:

_Ai, Helena, como você é engraçada. _ fingi que acabara de ouvir uma besteira e minha amiga do outro lado teve certeza que eu estava sob efeito de drogas pesadas. _Então, você vem aqui pra casa para a gente sair?

_Duda, você tem um alterego que acabou de emergir e nunca me contou? Por favor, não me assusta, o que deu em você? Tudo bem, estou indo para aí e espero que não te encontre em um pijama de flanela olhando a programação do History Chanel!

_Ok. _Desliguei e continuei olhando Emanuel roubando as uvas do cacho da mesa da sala, deixadas ali pelo meu pai. Ele estava de calça jeans clara, um sapatênis em bom estado e uma camisa, bom que diferença qualquer camisa faria naqueles braços enormes e perfeitamente torneados. _É... _levantei o tom de voz e ele percebeu que eu me dirigia a ele. _Vamos sair.

_Vamos? _levantou a sobrancelha de fios alinhados em uma curva que acompanhava o osso da cavidade ocular em harmonia, mas que falhavam em um ponto no final. Acho que percebeu o ponto da minha atenção e o tocou. _É uma cicatriz.

_Você era de alguma gangue e se deu mal um dia?

_Hum, não... _ sorriu, era raro que sorrisse e eu agradecia muito, por isso, muito daqueles sorrisos não surtiriam bons efeitos em minha solidão. _ É bem menos cinematográfico. Caí quando criança e bati com a testa... _balançou a cabeça para os lados e era o perfeito e puro sorriso de uma criança ali estampado. _Você falou que íamos...

_Ah! Vamos sair.

_Pra onde? _ ele estava preocupado no lugar, quando deveria querer entender que eu acabava de incluí-lo na minha vida de maneira plural.

_Por aí, pra noite...

_Duda, não... você sabe que...

Dei um passo ou foram dois, logo ficamos mais perto do que eu calculara e acho que a proximidade o fez se calar e me olhar em atenção.

_Você vai estar comigo, não vai? _ desafiei. _Então, minha mãe não tem por que se preocupar.

_Mas, ela teria, se soubesse que está procurando encrenca, não ficando aqui em casa!

_Ela te contratou pra isso, não foi? Pra que eu saísse.

_...Quando precisasse. _lembrou-me.

_Eu preciso, preciso muito. _dei dois passos de costas e depois girei os calcanhares em direção ao corredor do meu quarto e quando voltei vestido-salto-maquiagem, trouxera comigo um pote de gel. _vem comigo. _Puxei-o pela mão e o trouxe até a pia da cozinha.

_O que é que está pensando em fazer? _ perguntou, mas eu já tinha molhado as mãos como cirurgiã pronta para o trabalho. Fui até a mesa da cozinha onde largara o pote e peguei um pouco do gel viscoso e cheiroso. _Não vai colocar...

_No seu cabelo? _ baguncei-o em todas as direções e depois comecei a dedilhá-lo mecanicamente tão profissional quanto uma cabeleireira. A maciez de seda dos fios perfeitamente sedosos ofereceu um toque de veludo às palmas das minhas mãos. A ponta dos meus dedos percorreram o couro do seu cabelo, relaxando-o de maneira que os olhos piscaram mais lentamente. De repente, eu não sabia mais o que faltava arrumar, mais ainda não queria parar.

Ouvi duas tossidinhas e acordei para realidade. Virei o rosto e vi Helena entrar pela cozinha com um ar de acusadora.

_Helena, esse é o meu primo Emanuel. _ apresentei sem tirar os olhos das mãos que agarravam o pote de gel pra fechá-lo. Eu tinha ciência de que não era tão boa atriz assim pra fingir face a face.

Senti sobre mim dois olhares alarmados e depois encarei um e outro e me deparei também com duas bocas sem fala.

_Ãnh... Prazer, eu sou a amiga de Duda... _ela estendeu a mão, ainda confusa e Emanuel mais ainda desconcertado não sabia se evitava ou aceitava o cumprimento.

Eu caí na risada.

_Ok, ele não é meu primo. _ desfiz a brincadeira. _ Era só um teste pra ver se ia colar quando eu falar para os nossos amigos.

Helena olhou pra Emanuel agora de cima a baixo e depois me fuzilou. Eu já sabia o que pensava e eu iria impedir logo que continuasse me vendo como uma traidora.

_Esse é o meu guarda-costas. Agora preciso de um. Depois te explico essa loucura. Mas, não quero que ninguém saiba. Acha que pode ser meu primo?

_Isso não estava no contrato de trabalho...

_Eu perguntei pra ela. _ olhei pra Helena de braços cruzados.

_Acho que dá para as pessoas acreditarem. Agora, e seu namorado?

_Ele está aqui? Está vendo ele por aqui? Então, não se preocupe. _ a minha voz saiu com todo amargor possível, deixando quase um gosto de fel na boca.

_Eu vou pegar serviços mais calmos da próxima vez, como segurança do governador ou... _Emanuel veio resmungando com ironia atrás de mim.

_Mas, não vai se divertir tanto. _pisquei o olho e abri a porta da sala para os dois passarem. Agora, eu tinha um sorriso no rosto e podia senti-lo. Estava viva.

Aquela noite fora tão intensa e divertida que eu só conseguia me lembrar de acordar com o vestido amassado e só uma sandália no pé, a boca completamente seca. Tirei os cachos do rosto e tentei puxar pela memória os últimos acontecimentos. Fechei os olhos para ajudar e vi luzes, ouvi música eletrônica e ainda senti o bafo de muita bebida. Gemi e ri ao mesmo tempo rolando pela cama, com a bexiga cheia. Peguei uma caneta bic na escrivaninha e enfiei na cabeça para segurar o coque frouxo e fui até o banheiro.

Na cozinha, eu já de banho tomado e com uma cara melhor, encontrei Emanuel tomando café e lendo o jornal. Peguei uma xícara e abri a garrafa que fez um estalido abafado de vapor.

_Uau, o que foi ontem? _franzi a testa e segurei a xícara na altura do queixo.

_Você parecia voltar ao planeta Terra depois de muito tempo como uma lacraia esquizofrênica...

Abri a boca em horror e peguei a maçã da fruteira. Emanuel protegeu o rosto com o jornal e sua risada sonora e alta ecoou pelos azulejos da cozinha vibrando todo o ambiente.

_Desculpe, eu não deveria ter dito isso... _ deixou o jornal de lado e eu também, a maçã, beberiquei o café.

_Os primos podem...

_Seus amigos acreditaram... _ riu e me fez sorrir também. _Nós dois não temos nada em comum!

_Temos sim, somos praticamente a mesma pessoa agora. _minha voz saiu mais séria do que tencionei e ele deixou o sorriso fechar também. _Por agora... _corrigi. _Ontem, foi ótimo pra mim... Eu estava precisando exorcizar um pouco.

_Exorcizar é a palavra certa.

_Por que você é sempre tão ridículo? _ atirei a bola do miolo do pão que acabara de fazer.

_Não é meu trabalho te fazer feliz, só te proteger. Mas, ele fica bem mais fácil assim... _disse com uma voz mansa e baixa. Levantei os olhos do pote de manteiga de onde tirava uma fina camada com a ponta da faca. _ ...Você é muito solitária. Eu não tenho nada a ver com...

_Tudo bem, eu lido bem com isso. Quer dizer, vou tentando. _mordi o pão. _Nem todo mundo pode ter a quem se ama perto...

_Mas, pode amar quem está perto. _falou com a facilidade que conseguia dizer e ver todas as coisas, fazendo parar o bolo de pão na entrada da minha garganta. Engoli e afastei os olhos de seu azul cristalino. _Você fala como se fosse uma condição natural, quando é uma escolha.

_Eu não escolhi quem eu amei... _defendi-me.

_Mas, permitiu. Talvez, não esteja se permitindo o que é bom pra você.

Levantei-me da mesa e deixei a xícara na pia e os poucos segundos que ficara de costas não percebera que Emanuel já tinha se aproximado e estava atrás de mim quando me virara.

_Desculpe, eu não podia ter tomado a liberdade de falar da sua vida.

_Ok. Eu só não sei como mudar isso, e nem sei se quero, eu estou bem...

_Claro que está. _não era uma constatação, mas uma tentativa de me ajudar a acreditar.

_Obrigada por estar tornando tudo mais fácil.

_O que mais fácil? _ ele estendeu a mão pra tocar no meu cabelo e eu senti um calor subir pelo meu pescoço, se preparando e aguardando o toque.

_Toda a situação de ter um guarda-costas... _ falei o que não era o que estava pensando e vi decepção e seu rosto e perdi com isso o seu afago. Eu queria muito um carinho, precisava fisicamente de tato.

_Que bom que eu sou um facilitador pra você. _olhou o relógio pra mostrar que se lembrava de algo e saiu. Se era ofensa em seu rosto, eu não vi, pois evaporou-se rapidamente pelo corredor. Ouvi o toque do meu telefone vindo do quarto e não corri pra atendê-lo. Devia ser Helena e eu também não queria dar explicações, eu mesma já confusa o suficientes.

_Hei, eu fiz uma pergunta. Para aonde vamos? _era a voz de Emanuel do outro lado do carro, me acordando das lembranças da semana.

_Ver um filme que estreou.

_Qual? _ perguntou, já ligando o motor.

_Querido John.

_Ouvi falar... Você tem certeza que quer vê-lo?

_Claro! Tem a ver com a minha história. Ah! Vamos, não banque o meu pai querendo me proteger...

_Só estou bancando seu segurança. _virou o volante e me deu uma olhada.

_Engraçadinho. Vai dizer que meu coração está seguro também?_ arrependi-me da pergunta, captando em seguida todas as possibilidades de interpretação, mas não podia recolhê-las de volta, uma vez atiradas como dado sobre a mesa de jogos verbais.

_Comigo? _ a pergunta me trouxera mais problemas do que qualquer respostas, pois podia ser blefe ou cartas na manga arrasadoras.

_O que poderia fazer de mal? _nada como blefar também.

_Eu nunca, nunca lhe faria nenhum mal. _ segurou a marcha com mais força do que de costume e engatou a quinta, acelerando além do que devia.

_Às vezes, a gente faz mal sem querer... _encolhi os ombros.

_Isso vindo de você, eu acredito. _apertou o freio diante da máquina de ticket de estacionamento e abriu a janela para estender o braço.

“Como assim, ‘vindo de você’, senhorita destruidora de corações?” Não continuei arriscando todas as minha fichas. Saí do carro e lembrei que estávamos atrasados. Troquei aquela conversa por um lamento de não poder comprar pipoca. Ele, então, se ofereceu pra correr e pegar um combo, enquanto eu imprimia os ingressos na máquina de atendimento rápido.

Já aguardando na fila, senti uma mão espalmada nas minhas costas. Assustei-me e virei rapidamente pra ver quem era e dei de encontro ao peito largo e forte de Emanuel. Ele trouxe minha cintura pra perto de si e disse que estava tudo bem. Olhou em volta como de costumes varrendo o território a procura de qualquer problema. Mas, para mim o ‘inimigo’ estava mais perto.

_Não faz isso que me assusta. _ ralhei baixinho.

_Mais que o Freddy Krueger? _ apontou para o cartaz ao lado.

_Não, seu bobo! _ dei um empurrãozinho no seu peito e ele voltou como mola para perto com um grande sorriso no rosto e os olhos cintilando.

_Olha que eu posso invadir seus sonhos. _ ameaçou, seguindo comigo pelo corredor de carpete vermelho.

_Isso é uma maldição? _ fingi desapontamento.

_Pra onde você vai? _ achou graça de eu estar meio perdida e, pra ajudar, pegou a minha mão e me puxou para a porta da sala ao lado. Por alguns segundos caminhamos assim, com nossas mãos se tocando.

_Qual o número da nossa cadeira mesmo? _ peguei o papel e tentei olhar em uma luz pontual no canto do corredor cinza e escuro.

Ele mastigava uma pipoca e tinha os olhos em meu rosto. Eu imaginei como seria sua boca rosada com gosto de sal e úmida. Que sabor teria sua saliva e a textura da sua língua?

_Não está conseguindo ver direito?_ perguntou. Eu queria responder que não conseguia mais ver nada direito, tudo era um lindo e divertido sonho que eu não devia estar acontecendo de jeito nenhum. _Deixa eu te ajudar.

Talvez, não esteja se permitindo o que é bom pra você”, a frase me veio à cabeça. Aquilo estava sendo muito bom pra mim, até o ponto de eu tomar consciência de que não podia ser bom e sofrer. Como doía não poder estar com quem queria e ao mesmo tempo não poder querer com quem se está.

_Vem, vamos perder o início. É M 7 e 8. _Chamou-me.

Caminhei mais atrás e Emanuel percebeu que não devia ser assim e me deu passagem, colocando sua mão em minhas costas.

O filme fora incrível, eu chorara do começo a o fim e me sentira como projetada da tela em muitos momentos. Tudo que eu queria era voltar pra casa imediatamente depois daquele toque profundo no meu ponto mais sensível.

Assim que cheguei à varanda perto da porta da sala, virei-me pra Emanuel e agradeci a companhia. Ele só estava ao meu lado por causa do seu dever, mas fizera tudo ser muito mais legal.

_Você é muito divertido.

Ele sorriu, mas, de repente, seu rosto se fechou e seus olhos se levantaram para algo atrás de mim e deu um passo levemente atrás. Meu corpo inteiro gelou.



(***)

O que houve? Ou... quem é?